Há uma fase do processo de memorização em que o dado se encontra em estado de gravação; temos Alzheimer relativamente à específica coisa encontrada em tal etapa. Aí há nisso aquele momento em que a fugidia memória recente (seja uma melodia, um rosto) surge claramente, como se nunca mais fosse desaparecer – e a lembrança em si vira um prazer, vira um reprodutor multimídia (incluindo aí mídias ainda não estabelecidas ou sequer inventadas) que toca um som, que lança um holograma da dimensão querida – estamos na nossa plena capacidade de lembrar (daquilo) – saudáveis (para aquilo), portanto – é possível inclusive animar o rosto ou ouvir outras versões da música. Um processo de associações começa a fim de que se mapeie, com recursos vários – associações, repetições etc. – , a lembrança; inda assim aos poucos a melodia passa a não mais fazer sentido (a letra, quando há, não cabe nela) ou o rosto começa a traçar outras características e proporções, às vezes confundindo-se com outros, às vezes virando um outro, uma atriz, uma outra pessoa conhecida, uma outra pessoa nada que ver – que talvez nem exista nos sete bilhões existentes ou quiça mesmo nos cem bilhões existidos. Constata-se que não se estava em lugar algum a não ser num pico cíclico da clareza que a lembrança maturando apenas alcança intermitentemente. Donde é preciso aguardar esperançosamente (e não sei o quanto esforço efetivamente colabora com isso) as sinapses se alinharem ou um novo acesso ao original, à luz primordial, à vibração presente (na passarela no mesmo horário, na hora do recreio, nas mais pedidas).
.^^.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Acerto errático enterrado pelo erro: achemo-lo
Lápis (grafite) demora para acabar e quando acaba é barato comprar outro (ou mesmo achar algum em casa perdido, alguém emprestar); caneta acaba mais rápido, mas é barato também, dá até para - em último caso - arrancar a acorrentada à bancada envidraçada do banco para depósitos em envelope, pegar a dos seguros, dos políticos - mesmo que seja o que tu não votas; papel há por tudo, há para caralho, com vários brancos (leia-se espaços sem tintas) disponíveis - o próprio envelope de agora há pouco, o guardanapo - em último caso - ou primeiro, em vista da urgência - há a gordura expelida pela pele na ponta do dedo para marcar a janela - sem contar a areia, a faca etc. Erremos. Erremos muito, sempre, que o acerto errático está ali, fossilizado pelo futuro eterno, para ser achado, dissecado, explorado, suposto, confundido com o erro que o enterrou e assim o protegeu dos outros para que a descoberta fosse tua. "Acertar o erro" abarca todo o espaço disponível em voltar do vermelho no centro do alvo - o céu, a própria cara (um flecha selfie); confundamo-nos que já não interessa, interessa cavar, olhar para cima, arriscar, a agulha no palheiro e olha o palheiro etc. Erremos.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
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Deixei de capturar, num intervalo temporal menor do que um dia, um vídeo e uma foto, ambos deveriam ficar altamente curtíveis. Ontem a certa altura de uma travessia pelo pampa gaúcho, do ângulo da janela do ônibus a linha do horizonte passou a coincidir intermitentemente com as linhas dos fios dos postes de eletricidade, ou seja, dada as suas naturezas geométricas, a linha reta e permanente do horizonte era atravessada pelas linhas parabólicas dos fios, que portanto ora estavam acima, ora abaixo, ora colados à linha do chão encontrando o céu: nada menos do que uma dança abstrata, mas figurando-se claramente numa valsa silenciosa e privada, exclusiva da minha visão (a maioria dos passageiros dormia àquela hora, eu mesmo pouco antes dormia também). Hoje, já não só fora de um confortável banco num ambiente climatizado conduzido por motores, mas também sob a chuva, movimentado pela força de minhas próprias pernas (numa ação burocrático de volta para casa), vi um morador de rua abraçando-se a um vira-latas: este parecia um humano, tamanho serenidade com que o fazia, sem lamber, sem estardalhaço; aquele parecia um cão, tamanha incondicionalidade do ato, que superava a chuva e a vergonha social, ali sentado na calçada no horário de pico, num carinho direto e puro, carinho não raro tão reprimido de desconfiança na nossa espécie – o fato de um parecer o outro denunciava o que eram: que não eram nenhum nem outro, mas apenas a mesma coisa, duas criaturas vivas cingidas por afeto.
Em ambos os casos, a bateria do meu celular acabara instantes antes desses instantes. Mas a da memória não.
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